As festividades de fim de ano já haviam passado quando ele teve o troço. Tudo começou no início de Novembro. Trabalhava no setor de contabilidade da firma há 15 anos e gozava de absoluta confiança dos proprietários e dos chefes; ele mesmo era chefe de seção. Casado, três filhos, diploma de curso superior e algumas pós-graduações feitas aos sábados e domingos para não interromper o trabalho. Era o que se chama de um funcionário exemplar.
Desde a implosão da economia mundial que vivia preocupado com as decisões da direção da empresa. Todas as manhãs, bem cedo, lia as manchetes dos jornais internacionais. O diretor financeiro, seu superior hierárquico, numa sexta-feira, no final do expediente, enviou-lhe uma mensagem pelo e.mail para que estivesse em sua sala às 19 horas. Telefonou para a mulher relatando o fato e dizendo que achava que seria despedido. A mulher o tranqüilizou, afirmando que não havia motivo algum para o desespero. Se está tudo certo, nada poderá sair errado. Foi encontrar com o chefe.
Na sala, a iluminação feérica, o som ambiente e o ar-condicionado em baixa temperatura indicavam que a mulher estava com a razão. O chefe, pés sobre a mesa, indicou-lhe uma confortável poltrona e ofereceu-lhe uma taça de espumante. Não tinham nenhuma intimidade, e ele ficou acabrunhado com a recepção. Após alguns segundos, o chefe perguntou sobre a sua opinião a respeito da crise mundial. Pôxa, lá vem a minha demissão, pensou. Deu um gole no líquido borbulhante e começou falando sobre pesquisas que tem feito a respeito do assunto. Analisou cada item da questão no mundo e no Brasil; apresentou medidas essenciais para a manutenção da saúde da empresa, e as enumerou começando pela contenção de custos operacionais. Disse que o exemplo na economia deveria partir das chefias e comentou um estudo sobre a utilização de energia solar e a diminuição do uso de ar-condicionado. Quase mencionou o exagero da iluminação e da refrigeração na sala do chefe, mas considerou que o momento inadequado poderia ser sentido como uma admoestação. Calou-se.
O chefe elogiou sua explanação e o convidou a repeti-la na reunião de diretoria da segunda-feira. Aceitou, repetiu a taça de espumante e saiu ainda mais preocupado.
Na segunda-feira, refez os passos costumeiros e, com a ajuda da mulher, que estudou inglês, teve o cuidado de entender o que pensavam os analistas dos principais institutos de pesquisas que avaliam a economia mundial. Às sete da manhã estava pronto para entrar na arena dos leões, como diziam os colegas de trabalho.
Roupa bem passada, gravata laranja, sapatos impecáveis. O presidente o recebeu à porta e o levou ao seu lugar. No início, esteve um pouco nervoso, depois seguiu em frente. Ao final dos 40 minutos, encerrou a explanação. O presidente, de pé, agradeceu e iniciou uma fala esquisita, dizendo que seus argumentos, apesar de precisos, estavam eivados de pessimismo: – Estamos em outros tempos, e o senhor, tão jovem, não vê o futuro brilhando à sua frente. É em momentos de crise que surgem as melhores oportunidades. O senhor, pelos seus méritos e preocupações, receberá um aumento de 30% no seu salário, além de uma régia gratificação de Natal. Vá, pegue a sua família, troque o seu carro, renove o guarda-roupa, compre uma televisão HDLCD 72’, e, no ano que vem, dê seu imóvel de entrada num outro em construção. Boa sorte.
O troço chegou junto com as contas a pagar e no momento em que viu o nosso presidente falando na televisão sobre a crise, logo depois do discurso de posse do Barack Obama. Era uma fala enrolada que ninguém entendia. Pareciam palavras de baixo calão, confusas e inaudíveis.
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