04.07.2009
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Contos eróticos

Publicado 29.09.2008
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Sábado caiu o maior toró. Na varanda de casa observei o verde surgindo das entranhas da terra. Parece mentira, mas é verdade. Achando que estava sonhando, desci as escadas e, na chuva que me lavava a alma, olhei bem de perto o pé de limão. Ele estava amarelado e sem vida. O verde, com o seu cheiro, foi tomando conta do caule e passando para as folhas. Chamei minha mulher para assistir à transformação da natureza. Ela não ouviu meu chamado. Como o pé já estava totalmente verde e a noite caía, decidi ficar calado para não passar por caduco que fica inventando coisas.

Voltei todo molhado para dentro de casa e corri para um banho quente. No primeiro trovão, a luz acabou. Como já me conheço de cor e salteado, terminei o banho com cuidado para não escorregar e quebrar a bacia; a minha.

Na escuridão, sem poder ver a novela, peguei o laptop. Sentei-me na cama e iniciei passeios pela internet. Encontrei o site do Marcelino- www.marcelino.fot.br, velho companheiro de juventude em Miracema, no Estado do Rio de Janeiro. Bons tempos. Ele era editor do meu irmão Carlos Alberto Castelo Branco, jornalista e escritor, falecido há algum tempo, que não sei quanto, pois ele está sempre presente na minha vida e nos meus textos.

Da vizinhança, uma música suave entrava pelas frestas. Algumas pessoas comemoravam civilizadamente suas alegrias.

No site, descobri estes contos escritos pelo Beto, apelido do meu irmão, que dizia ele serem eróticos:

“Sempre tive vontade de escrever contos eróticos, mas acho que não levo muito jeito. As frases me saem grossas, pesadas, ásperas, e sinto, nas tramas, algo de vulgar e inverossímil.

Numa primeira tentativa, imaginei uma manhã belíssima, jardins repletos de flores, traíras saltitando no Ribeirão Santo Antonio, borboletas multicoloridas esvoaçando, sugando néctares e distribuindo alegria. Cláudio Manuel sente seu corpo lânguido ansiar por amor. Com o olhar rútilo, dirige-se à casa de sua comadre, mulher sensual e provocativa, apesar de seu ar de recatada senhorinha.

— Olá, comadre. O compadre está? - indaga Cláudio Manuel.

— Não, compadre. José Elísio foi fazer uma cavalgada. Levou as crianças. Vão até Paraíso do Tobias.

— E você não quis ir, comadre?

— Não, compadre. As cavalgadas me sacrificam muito. Fico toda esfolada. Não consigo nem caminhar, por vários dias.

— Onde machuca, comadre?

— Aqui, olha. Na parte interna das coxas.

— E se a gente soprar, não alivia, comadre?

 

Ficou horrível, não é?

 

A segunda tentativa não foi melhor. Tinha, também, como personagens, o Cláudio Manuel e a gostosa da sua comadre:

— Você gosta de bolo de chocolate, comadre?

— Adoro, compadre. Infelizmente, não sei fazer.

— Não seja por isso, comadre. Eu ensino, anote aí. Uma barra de chocolate, duas xícaras de farinha de trigo, uma xícara de açúcar, uma rodela de limão. Leve tudo ao fogo brando e vá mexendo. Vá mexendo, comadre. Mexe mais. Não pare agora, comadre! Vá mexendo, assim, assim. Mexe mais, mais. Ai, comadre, eu te amo.

 

Pior do que a outra, não há como negar. Ficou vulgar, beirando a cafajestada. Desisto. Nunca mais vou tentar contos eróticos. Essas coisas têm que ser ditas com muito jeito, a voz gutural, ao pé do ouvido, bem baixinho, provocando arrepios na espinha e eriçando os pelos da nuca. Não é, comadre? ”

Não, não estou enchendo lingüiça, estou só dividindo a companhia de um sujeito que me deu lições de vida, me defendeu nas brigas de bairro, me ensinou a não ter medo, e a aproveitar a vida. Ele era só dois anos mais velho do que eu, e, hoje, já sou mais velho do que ele. Nos divertimos pra caramba!

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